Era domingo de manhã e um passarinho cantava lá longe. Michelle foi acordando, assimilando aos poucos aonde estava, lembrando da noite passada. Olhou pro lado e ele realmente estava lá. Sorriu e suspirou, mostrando seu alívio. Era verdade. Era tudo verdade! Não era a sua mente tentando pregar algum tipo de peça, tentando mostrar a loucura que aquilo tinha virado. Não, não era. Tinha acontecido. Depois de dias mergulhada em um silêncio profundo, ela subira a superfície.
Ele ligou, pediu desculpas e a chamou pra jantar, pra poderem conversar melhor. A princípio, ela negou, disse que tinha coisas pra fazer. Pura mentira, mas não podia parecer desesperada. Esperou uma segunda ligação e, no dia seguinte, lá estava o telefone tocando. Era ele de novo. Dessa vez, ela aceitou.
Jantaram, conversaram e ela aceitou ir para a casa dele, buscar umas coisas que ele tinha achado. Achou estranho, não sentira falta de nada, mas não discutiu. Sabia que tinha que ir e ponto. Ao parar na porta da casa dele, Michelle prestou atenção no jardim. Adorava aquele jardim, como se já o conhecesse de alguma capa ou encarte de um cd qualquer. As tulipas, em especial, a fazia sorrir. Era o seu segredo, ninguém mais sabia ou ao menos lembrava. Era seu, só seu.
Entrou, sentou no sofá. Ele disse que ia buscar as tais coisas e já voltava. Nisso, ela reparou que ainda havia uma foto dos dois, no velho porta-retrato. Foi aí que as coisas começaram a fazer sentido. Não importava o caminho a ser seguido, todos, hora ou outra, terminariam nela. Michelle se sentiu leve. Se sentiu a garota mais sortuda no mundo. Teve vontade de subir aquelas escadas e correr até ele, abraçá-lo e dizer que queria parar com os joguinhos, queria ser feliz de uma vez, que queria poder chamá-lo de seu. Se controlou e esperou, afinal ela podia estar errada como tantas vezes antes.
Ele desceu com um livro verde. Ela ficou tentando caçar no fundo da sua memória que livro era aquele. Antes que ela tentasse dizer que aquilo não era seu, que devia ser de uma vadiazinha qualquer que ele trouxera pra lá, ele disse que queria a opinião dela. Abriu o livro e vi que, na verdade, era um álbum de fotos. Tinha fotos dos dois que ela nem lembrava mais, alguns espaços não continham fotos, mas sim versos de música. Ela viu Michelle, Dia Especial, Sunday, The Masterplan, Too Much To Ask, Mona Lisa... Michelle ficou sem palavras e sentiu uma lágrima correr.
Tentou falar, mas ele a interrompeu de novo. Disse que não queria que ela falasse nada, só queria poder dormir e acordar com ela ao seu lado, nem que fosse pela última vez. Ela concordou. E sabia que ele sabia o que ela estava sentido, ele sempre lia o seu coração pelo olhar. Subiram de mãos dadas, deitaram. Michelle sonhou azul.
Agora ela estava lá, deitada, olhando ele dormir. O beijou, ele se assustou e sorriu. Ela deitou sobre o peito dele e assim ficaram, sem dizer uma única palavra. As batidas do coração dele soaram como música para os seus ouvidos.
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